Domingo, Novembro 15, 2009

Bendito seja eu por tudo o que não sei

Bendito seja eu por tudo o que não sei

gozo tudo isso como quem sabe que há o sol

Fernando Pessoa

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

Dez Réis de Esperança


Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

António Gedeão

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

frase de Saint-Exupery:

Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.

Sexta-feira, Outubro 16, 2009

PARTIR

Eu vou-me embora para além do Tejo,

não posso mais ficar!

Já sei de cor os passos de cada dia,
na boca as mesmas palavras
batidas nos meus ouvidos...
- Ai as desgraças humanas destas paisagens iguais!...
Abro os olhos e não vejo
já não ando, já não oiço...
Não posso mais...
Grita-me a Vida de longe
e eu vou-me embora para além do Tejo.

Passa a ave no céu bebendo azul e diz: -Vem!
O vento envolve-me numa carícia,
envolve-me e murmura: -Vem!
As ondas estalam nas praias e vão mar fora,
as mãos de espuma a prender-me os sentidos
chamam no fundo dos meus olhos: -Vem!

- Camaradas,eu vou,esperai um pouco...
Ai,mas a vida nunca espera por ninguém...
E a noite chega vingadora;
o vento rasga-me o fato,
as ondas molham-me a carne
e a ave pia misticamente no ar;
abro os olhos e não vejo,
já não ando, já não oiço
- e fico, desgraçado de ficar!..


MANUEL DA FONSECA

Obra Poética


E tu partes ?

Quarta-feira, Outubro 14, 2009

SEM INTERESSE?


Disseste-me um dia que eu era desprovido de interesse
E eu que me alimentava do teu interesse por mim
Fiquei mais exaurido que um elefante sem marfim
À tona de água, sem saber para onde me levava a morte

Quis voltar a interessar-me por gente que gostasse de mim
E que me alimentasse o desejo de ser lavrado e semeado
Mas em toda a parte, os olhos do povo, soletravam as mesmas palavras:
“Não tens qualquer interesse, para que te ame um amor sem fim”

Resignei-me a calar a inquietação de ser uma alma sem interesse
E comecei a escutar o interesse das almas daqueles que nunca escutava
Foi então, que se acendeu uma ténue luz, que a morte ocultava

Na verdade, quem ama desprovido de interesse pelo outro
Não ama mais nada senão o seu próprio ser, centrado em si mesmo
Tão desprovido de interesse, quanto cegas são as palavras sem sentido.



(João Firmino, 14 de Outubro de 2009)

Terça-feira, Outubro 13, 2009

Liberdade

Liberdade querida, e suspirada,

Que o despotismo acérrimo condena;

Liberdade, a meus olhos mais serena

Que o sereno clarão da madrugada:

Atende à minha voz, que gene e brada

Por ver-te, por gozar-te a face amena;

Liberdade gentil, desterra a pena

Em que esta alma infeliz jaz sepultada.

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,

Cujo semblante mais do que os astros brilha:

Vem, solta-me o grilhão de adversidade;

Dos céus descende, pois dos céus és filha,

Mãe dos prazeres, doce Liberdade!

Bocage

Domingo, Outubro 04, 2009

Por isso é que eu sou das ilhas de bruma

Onde as gaivotas vão beijar a terra

Se no olhar trago a dolência das ondas

O olhar é a doçura das lagoas

É que trago a ternura das hortênsias

No coração a ardência das caldeiras.

Por isso é que eu sou das ilhas de bruma

Onde as gaivotas vão beijar a terra

É que nas veias corre-me basalto preto

No coração a ardência das caldeiras

O mar imenso me enche a alma

E tenho verde, tanto verde a indicar-me a esperança.

José Ferreira

Sexta-feira, Setembro 25, 2009

poema do espelho

Escrevo poemas no espelho.
Pequenos poemas. No espelho,
não cabem tantos versos.
O espelho é o meu papel e o dedo indicador meu lápis digitalizado.
Deslizo o dedo no esfumaçado espelho,
Que me olha embaçado.
Sulcos em forma de letras,
Percorrem caminhos limitados
Por árvores em forma de moldura.
No espelho perpendicular ao chão,
Sou poeta ambidestro da letra bastão.
Sensações de calor provocadas pelo vapor d’agua...Quantos minutos o meu corpo necessita para produzi-los?
O tempo não importa, o que conto, são os passos escorregadios... eles me guiam até o prego na parede.
Escrevo na névoa efêmera impressa na lâmina espelhada,
versos perenes e incompletos,
que se tornam inteligíveis,
quando o meu amor os completam no próximo banho...

João Brasileiro


Boa Reflexão

E que o espelho vos mostre a poesia

Sábado, Setembro 19, 2009

Só de Sacanagem

Meu coração está aos pulos!

Quantas vezes minha esperança será posta à prova?

Por quantas provas terá ela que passar?

Tudo isso que está aí no ar,

malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro,

do meu, do nosso dinheiro

que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós,

para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais,

esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.

Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?

Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?

É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz,

mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração está no escuro, a luz é simples,

regada ao conselho simples de meu pai,

minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás",

"Devolva o lápis do coleguinha",

"Esse apontador não é seu, minha filha".

Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.

Até habeas corpus preventivo,

coisa da qual nunca tinha visto falar

e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste:

esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará.

Pois bem, se mexeram comigo,

com a velha e fiel fé do meu povo sofrido,

então agora eu vou sacanear:

mais honesta ainda vou ficar.

Só de sacanagem!

Dirão: "Deixa de ser boba,

desde Cabral que aqui todo mundo rouba"

e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval,

vou confiar mais e outra vez.

Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos,

vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês.

Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."

Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto,

desde o primeiro homem que veio de Portugal".

Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal.

Eu repito, ouviram? Imortal!

Sei que não dá para mudar o começo mas,

se a gente quiser,

vai dar para mudar o final!

Elisa Lucinda

Sexta-feira, Setembro 18, 2009

Poema mestiço

escrevo mediterrâneo

na serena voz do Índico

sou do norte

em coração do sul

na praia do oriente

sou areia náufraga

de nenhum mundo

hei-de

começar mais tarde

por ora

sou a pegada

do passo por acontecer.

Mia Couto

Terça-feira, Setembro 15, 2009

FIVE’O CLOCK TEA

Eu canto o chá das cinco que minha Mulher ofereceu,

Às seis da tarde, ao longo da barra azul da sala,

Àquela senhora inglesa que o Outono nos adiantou,

Tão distinta, discreta, boa e doce.

Naquela cadeira exposta ali na sala aos destinos

Das pessoas que vão entrando;

Aquela senhora de modos tão finos

E de dentes brancos onde já um ramo de tempo deita

sombra;

Aquela senhora, ali, inglesa, no seu vestido de miosótis,

De que não me atrevo a pedir ramo algum

Enquanto bebo o meu chá, ao lado dela, pensando

Em tanto miosótis que tenho visto e me tenho acanhado

de pedir ―

Ou por não ser tempo de miosótis e ficar feio andar augado,

Ou por não haver outra coisa nos jardins senão miosótis

e não me apetecer, francamente…

E assim, imobilizado o meu pálido yes

E falando francês àquela senhora inglesa,

Eu canto o chá dourado que minha Mulher lhe oferece ―

Minha Mulher, que não é inglesa mas gosta de pessoas

de Inglaterra,

E pôs a barra azul na sala, por poesia,

E escureceu os móveis numa tarde toda dourada

Em que mais triste se sentia.

A senhora inglesa,

Que uma amiga nossa que já esteve em Inglaterra nos

trouxe para este dia;

A senhora inglesa dos olhos claros;

A senhora inglesa que só disse palavras correctas, coisas

correctas,

E insinuou, na tarde, uma sinuosidade e uma harmonia

Só com o seu sim ou o seu não,

O seu braço longo, desistido, inapetente, mas belo

Precisamente porque é já o braço para o neto esfregar

as gengivas

E roer e rir, e rir e roer, meses depois de nascer,

Como um belo guizo de oiro que só mesmo feito em

Inglaterra!

O braço que não ocupa lugar e mede pela asa da chávena

(À distância a que a senhora inglesa a põe nos seus

dedos como asas)

O abismo que vai da senhora inglesa a um lugar

da Inglaterra,

E desta hora do chá a uma outra hora lá dela,

Íntima, doce, única, rara, ampla, esquecida,

Que não existiu talvez senão para ser lembrada

Em minha casa, esta tarde, e a comer short-bread ―

Que é assim a vida…

Vitorino Nemésio

Sexta-feira, Setembro 04, 2009

CHUVA AZUL

Eu quero entornar
A poesia por aí.
Sorver o vício,
Em golfadas monstruosas.
Zarpar ao sabor
Dos muitos sentimentos,
E agarrar o momento,
No ar.
Eu quero embebedar
O pensamento no torvelinho
Das imagens,
Morder a dor em cada sobressalto.
Esventrar o agora
Que se cola na cara
E se mistura com a chuva azul.
Eu só quero o nunca.

Só eu quero o nunca.


Fernando Jóia

Quarta-feira, Setembro 02, 2009



William Turner - Ulisses à Deriva com Polifemo



Horizonte


O mar anterior a nós, teus medos

Tinham coral e praias e arvoredos.

Desvendadas a noite e a cerração,

As tormentas passadas e o mistério,

Abria em flor o Longe, e o Sul sidério

'Splendia sobre sobre as naus da iniciação.



Linha severa da longínqua costa...

Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta

Em árvores onde o Longe nada tinha;

Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:

E, no desembarcar, há aves, flores,

Onde era só, de longe a abstracta linha.



O sonho é ver as formas invisíveis

Da distância imprecisa, e, com sensíveis

Movimentos da esp'rança e da vontade,

Buscar na linha fria do horizonte

A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte...

Os beijos merecidos da Verdade.


Fernando Pessoa

Domingo, Agosto 23, 2009

Outros terão
Um lar, quem saiba, amor, paz, um amigo.
A inteira, negra e fria solidão
Está comigo.

A outros talvez
Há alguma coisa quente, igual, afim
No mundo real.
Não chega nunca a vez
Para mim.

"Que importa?"
Digo, mas só Deus sabe que o não creio.
Nem um casual mendigo à minha porta
Sentar-se veio.

"Quem tem de ser?"
Não sofre menos quem o reconhece.
Sofre quem finge desprezar sofrer
Pois não esquece.

Isto até quando?
Só tenho por consolação
Que os olhos se me vão acostumando
À escuridão.

Fernando Pessoa, 13-1-1920.

Terça-feira, Agosto 04, 2009

Escreverás meu nome com todas as letras, 
Com todas as datas 
- e não serei eu. 
  
Repetirás o que me ouviste, 
O que leste de mim, e mostrarás meu retrato 
- e nada disso serei eu. 
  
(...) 
  
Somos uma difícil unidade 
De muitos instantes mínimos 
- isso seria eu. 
  
Mil fragmentos somos, em jogo misterioso, 
Aproximamo-nos e afastamo-nos, eternamente 
- Como me poderão encontrar? 
  
Novos e antigos todos os dias, 
Transparentes e opacos, segundo o giro da luz 
- nós mesmos nos  procuramos. 
  
E por entre as circunstâncias fluímos, 
Leves e livres como a cascata pelas pedras.           
- Que metal nos poderia prender?

Cecilia Meireles

A Gente Vai Continuar

Tira a mão do queixo, não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Jorge Palma

A poesia anda um bocado descuidada... Mas continua

Segunda-feira, Julho 20, 2009

"Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade"

A Lua

A lua cheia de beleza e luz

É fase bela e misteriosa

Por que será que a tantos seduz ?

Talvez por ser tão cantada em prosa.


Lua minguante, fase tão modesta

Que míngua a dor do que acredita nela.

É lua boa e não se manifesta

Como uma fase que aparece bela.


A lua nova, clara e brilhante,

Sempre renova a fé de algum mortal;

É lua limpa, não tem semelhante

Visível em todo plano sideral.


Lua crescente, cresce a esperança,

De vida boa, com fartura e paz.

Com fé na lua, toda a graça alcança,

Quem, com trabalho, seu destino faz.


Dizem que a lua influencia a vida,

Sendo a raiz dessa crença remota.

Há quem afirme ser crença vencida,

Mas contestá-la se torna idiota...

Luiz Tannus

Terça-feira, Julho 14, 2009

TOCA A CORNETA NEGRO

O meu filho vai crescendo
à volta da meia-noite
enquanto viaja e sonha
entre passado e futuro
através do dia claro
através do mundo escuro
num barquinho de papel
conduzido pelo pincel
sempre a caminho do Sul
e por dentro do seu sonho
à volta da meia-noite
um negro toca corneta
pintando o mundo de azul.

José Fanha

Domingo, Junho 14, 2009

15 ANOS APÓS A MORTE DE aNTÓNIO VARIAÇÕES


não me consumas


Não me consumas
Não me consumas
Não me consumas mais
Não me consumas mais

Pára de me consumir
Que tu abusas
Que tu abusas
Sempre cada vez mais
Não é fácil digerir
Pára de me consumir

Porque já estou farto
De ser o olfacto
Da tua laca e desse spray
Que é de uma marca que eu cá não sei
Ah, esses teus sais
Eu já não aguento mais

Estou enjoado do teu perfume
Esse extraído de um raro estrume
E com esse bac-stick
Não há nariz que não fique
Saturado de cheirar
Pára é de me gastar

Não me consumas
Não me consumas
Não me consumas mais
Não me consumas mais

Pára de me consumir
Que tu abusas
Que tu abusas
Sempre cada vez mais
Não é fácil digerir
Pára de me consumir

Não sou coisa nova
Para a tua moda
Não sou a trança do teu penteado
Nem o cabide do teu novo fato
Sempre gostaste de ser
A cópia do geral parecer

Não sou o espelho da tua vaidade
Nem a pastilha do teu à vontade
Não, comigo não
Não sou canal de televisão

Creme de noite, creme de dia
Um que endurece, outro que amacia
Tratas muito da fachada
Por dentro não tratas nada

Não me consumas
Não me consumas
Não me consumas


antónio variações


Quinta-feira, Junho 11, 2009

CÂNTICO NEGRO

José Régio

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali …

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos …

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: “vem por aqui”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí …

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos …

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios …

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “Vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou …
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
-Sei que não vou por aí!